Biópsia líquida é pouco invasiva e permite detectar e acompanhar o câncer

18.09.2019

Procedimento inovador, a biópsia líquida tem esse nome porque executa, em algumas circunstâncias, uma função similar a de uma biópsia tradicional – definir características moleculares do câncer e monitorar sua evolução – porém com o benefício de não submeter o paciente a um procedimento invasivo, como nas biópsias tradicionais, que consistem na retirada de parte do tumor para posterior análise laboratorial. A denominação “líquida” é proveniente da técnica: a coleta, nesse caso, é de fluídos corporais, entre saliva, urina e líquido cefalorraquidiano (fluído cérebro espinhal), mas principalmente a de sangue.

Porém, na realidade, com a biópsia tradicional se busca receber um laudo para descobrir a existência de célula cancerosa na região, e com a líquida, descobre-se os tipos de mutações genéticas que estão presentes nas células do câncer.

Saiba um pouco mais sobre a biópsia tradicional

Funcionamento e benefícios

O exame por meio do sangue é possível, pois os tumores deixam “rastros” na corrente sanguínea, como é o caso das células tumorais circulantes (CTCs), frações de DNA tumoral circulante (ctDNA) e outras estruturas microscópicas que auxiliam os médicos a compreender o subtipo e características do câncer.

Os níveis de ctDNA variam de acordo com diversos fatores, como tipo do câncer, localização do tumor, vascularização e rotatividade celular. De acordo com estudo recente, a maioria dos pacientes em estágio 3 e 4 (também conhecido como metastático) de cânceres de fígado, ovários, cólon, estômago, mama, esôfago, pâncreas, bexiga e cabeça e pescoço, além de pacientes com neuroblastoma (câncer que se origina a partir das células nervosas em várias partes do corpo, como pescoço, tórax, abdômen ou pélvis, mas é mais comum nos tecidos da glândula suprarrenal) e melanoma têm níveis de ctDNA detectáveis.

Mas tumores localizados no Sistema Nervoso Central e outros com características mucinosas (como os cânceres de próstata e de tireoide) frequentemente mostram níveis baixos ou ausentes. Esses são motivos pelos quais a biópsia líquida não pode substituir a tradicional em todas suas indicações: seja porque só detecta cânceres em estágio avançado, seja porque não detecta todos os tipos de câncer. Em casos de tumores cerebrais, o ctDNA pode ser encontrado no líquido cefalorraquidiano.

Além de auxiliar na genotipagem (análise dos genes) de cânceres sólidos de uma forma minimamente invasiva, a biópsia líquida também permite rastrear a progressão ou diminuição do tumor, traçando um perfil molecular do mesmo, e ajuda a descobrir a iminência da resistência a certo medicamento. Desse modo, o acompanhamento do quadro do paciente é muito mais eficaz.

A biópsia líquida se faz pertinente na medida em que detecta mecanismos de resistência primária e adquirida a tratamentos. O ctDNA pode ser explorado para monitorar a evolução clonal e identificar mecanismos heterogêneos de resistência aos medicamentos.

Assim, o procedimento possibilita que os médicos monitorem se o câncer está reagindo como o esperado a uma terapia, por meio das CTCs. Com as frações de DNA tumoral circulante, o profissional consegue compreender quais foram as mutações genéticas que aconteceram. Portanto, a terapia é melhor direcionada, tornando-se mais ativa, e são prevenidos efeitos colaterais desnecessários que atrapalhariam o tratamento e o aspecto psicológico do paciente.

 

Biópsia tradicional x biópsia líquida

O procedimento apresenta benefícios em relação à biópsia tradicional, na medida em que a mesma possui riscos inerentes, como hemorragia; danos ao órgão alvo; edema; e infecção. A biópsia tradicional também é contraindicada em casos de risco significativo de hemorragia; risco de proliferação de células malignas para tecidos saudáveis circundantes; risco de estimulação do crescimento do tumor; presença de uma infecção; e em quadros de trombocitopenia (redução de plaquetas).

Mas é importante ressaltar que ao longo dos anos e com a evolução da tecnologia, as biópsias têm ficado cada vez menos invasivas, de modo que necessitam uma quantidade menor de material extraído como amostra e utilizando técnicas mais precisas.

Por outro lado, em algumas instâncias, a biópsia líquida pode não detectar material para análise das alterações nos genes, que certamente seriam apreendidas no tecido tumoral, o que é mais comum em pacientes em estágios iniciais, devido a quantidade muito baixa de material do tumor na circulação.

Entre as vantagens da biópsia tradicional está a possibilidade de coleta de uma amostra maior e de uma análise e resultado mais rápidos (eventualmente por congelação, durante uma cirurgia). A amostra mais ampla é extremamente importante, pois as células cancerosas são altamente heterogêneas, o que significa que uma mutação pode se mostrar numa região e não em outra. Quando retirada uma amostra pequena, como em biópsias líquidas, a chance de uma mutação não ser detectada é maior, mas as mutações encontradas são as que refletem o componente mais agressivo do câncer, que é o que realmente importa. No futuro, os médicos esperam poder usar a biópsia líquida para ajudar a rastrear pacientes e aumentar o diagnóstico precoce.

Entenda a biópsia e a análise imunoistoquímica.

 

Possibilidades de tratamento e disponibilidade

Mesmo que se mostre positivamente e esteja em expansão, a biópsia líquida ainda está sendo desenvolvida nos Estados Unidos, onde a população já tem acesso a um exame que auxilia a previsão de metástase em cânceres de mama.

No Brasil, a tecnologia está aprovada para detecções acerca do câncer de pulmão, e passa por testes subsidiados pela AstraZeneca, conglomerado farmacêutico com sede no Reino Unido. Por isso, por enquanto, a tecnologia tem indicação restrita. E, claro, por ora está indisponível na saúde suplementar (ou seja, nos planos de saúde) e no Sistema Único de Saúde (SUS). A única forma de ter acesso à tecnologia é de modo particular, tendo em vista que alguns hospitais e laboratórios já a utilizam.