19.08.2019

Pesquisa avança no tratamento de câncer de mama agressivo, o triplo-negativo

Uma nova pesquisa traz esperança para o tratamento de um dos tipos de câncer de mama mais agressivos e que atinge as mulheres mais jovens: o triplo-negativo, subtipo que representa entre 15% e 20% dos tumores de mama. Em 2018, o Brasil registrou quase 59,7 mil novos casos de câncer de mama no total.

A descoberta do Laboratório Nacional de Biociências, publicada no Journal of Biological Chemistry, fornece uma estratégia sobre como impedir que as células desse tipo de tumor cresçam, sobrevivam e migrem, cortando as suas duas principais fontes de alimento: glutamina e ácidos graxos. Com isso, houve uma redução de 50% em termos de migração do câncer em relação ao controle.

— A gente explora alterações metabólicas nas células de câncer. O tipo triplo-negativo é muito dependente de um aminoácido, a glutamina. O que acontece se eu bloquear o consumo desse aminoácido? Conseguimos isso usando um inibidor que está na fase de estudo clínico nos Estados Unidos, sendo testado em pacientes, e deve ser aprovado como novo fármaco — afirma a pesquisadora do LNBio Sandra Martha Gomes Dias, responsável pelo estudo in vitro. — O que chama a atenção é a redução da migração dessas células, aspecto que tem grande importância no tratamento, pois elimina as células que levam à recidiva.

De acordo com Sandra, o problema é que o metabolismo da célula é muito moldável e, quando você bloqueia uma via, ela sobrevive por outra. Assim, um grupo dessas células passou a consumir mais ácidos graxos (gordura). A forma de inibir essa outra ação ainda vai exigir alguns anos de pesquisa.

Terapia alvo

A descoberta é importante porque pode, no futuro, ajudar médicos a direcionar a escolha de medicamentos. Atualmente, assim que uma paciente chega com diagnóstico de câncer de mama, é importante descobrir qual o subtipo dele para que o tratamento seja personalizado: são as chamadas terapia alvo. 

O principal marcador para a diferenciação dos tipos de câncer são proteínas. Quando o tumor é do tipo triplo-negativo não há essa possibilidade porque ele não tem as três proteínas que são alvo dos tratamentos. 

— Aí você já fica sabendo que não vai poder usar os melhores tratamentos que existem para câncer de mama e usa quimioterapia, que é mais abrangente, usada para vários tipos, mas que é um tratamento mais antigo, com mais efeitos colaterais. Ele afeta aspectos básicos da célula, como a capacidade de proliferar, mas acaba cortando também a proliferação das células normais de que você precisa.

O estudo vem sendo realizado há quatro anos no LNBio, que faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

 

Fonte: O Globo, 16/08/2019

  • Foto: CNPEM/Divulgação