03.12.2020

Direito à autoestima

As chances de cura do câncer de mama são, a cada dia, maiores. Quimioterápicos mais eficazes, técnicas cirúrgicas certeiras e menos invasivas têm contribuído. Além disso, hoje os esquemas de tratamento levam em consideração as características únicas de cada tumor e também da paciente. Ainda assim, receber o diagnóstico da doença pode ser algo devastador na vida de uma mulher. Mais do que o impacto físico sofrido, ela se vê diante do medo de morrer e do futuro das mudanças que seu corpo, sua feminilidade, autoestima e vida amorosa ou sexual poderão enfrentar.

Nesse sentido, o direito à reconstrução mamária imediata garantido pelo SUS é uma grande conquista para as pacientes brasileiras. Apesar de toda a repercussão emocional causada pela descoberta da doença, ter a opção de sair do hospital sem o tumor, mas com a mama é um alento. "Quando soube que teria de fazer cirurgia para retirar o câncer, foi um choque. Pensei logo que ficaria mutilada", diz a professora de educação física Cínthia da Rosa Morais, 31, que passou pelo procedimento no início de outubro pelo SUS. "Em seguida, no entanto, me disseram que eu poderia fazer a reconstrução imediatamente, o que me acalmou bastante". 

A gaúcha começou a achar que havia algo errado em março, enquanto trabalhava. "Eu sentia um peso na mama, mas achei que fosse por causa dos movimentos de impacto que faço enquanto dou aula de jump", conta. Até que apalpou um caroço grande, duro e dolorido, que a fez correr para um posto de saúde. Lá disseram que se tratava de um processo inflamatório e prescreveram analgésico. O remédio, no entanto, não teve o efeito esperado. Cíntia decidiu, então, marcar uma consulta médica no serviço especializado da PUC-RS, em Porto Alegre. Depois de uma batelada de exames, a confirmação: mesmo tão jovem, ela estava com um câncer que já atingia 12 centímetros. 

A equipe médica apresentou possibilidades de tratamento. Havia, por exemplo, a opção de passar por sessões de quimioterapia para diminuir o tamanho do tumor e, só depois, removê-lo cirurgicamente. Mas ela acabou optando por fazer logo a operação que extirpou também a mama sadia, como medida profilática. Cíntia decidiu ainda que, na mesma intervenção, colocaria próteses. "Ficaram um pouco maiores do que eram antes, por isso ainda estou me acostumando. Mas gostei muito do resultado e nada se compara ao risco de ficar sem as mamas".

Mulher sadia e completa

"A mulher que passa por uma mastectomia não perde só um órgão. Algumas sentem como se não estivessem mais completas", diz Luly Castellanos de Samper, presidente internacional para a Johnson & Johnson Medical Devices na América Latina, fabricante da linha de próteses mamárias Mentor. "Por isso, saber que existe uma alternativa é muito importante para fomentar a autoestima e o amor próprio como maneira de aumentar as chances de uma recuperação mais rápida".

A executiva faz questão de frisar que a reconstrução tem que ser uma escolha da paciente, não apenas uma indicação médica. Isso porque algumas preferem focar todos os esforços na recuperação e na continuidade do tratamento para só mais tarde decidir se querem ou não fazer a reconstrução mamária. Afinal, embora sejam mínimos, toda a intervenção apresenta riscos e inconvenientes.

"É claro que para nós, médicas, o desejo é de que todas as pacientes saiam do hospital com a mama reconstruída. Mas quem decide são elas. E a grande maioria acaba optando por fazer a reparação", diz a mastologista Maira Caleffi, presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA). "Nosso papel é fazer a indicação, informar sobre o direito à cirurgia reparadora imediata e fornecer a gama de possibilidades disponíveis para cada uma delas".

Conquista em etapas

Há duas leis que garantem o direito à reconstrução pelo SUS a todas as mulheres que sofrem mastectomia radical ou parcial em decorrência de câncer de mama. A primeira, de 1999, previa apenas que a cirurgia reparadora acontecesse, mas não determinava quando. Somente em 2013 uma nova lei mais específica garantiu que a operação pudesse ser feita imediatamente, na mesma intervenção de retirada do tumor. 

"Além do benefício para a paciente que passa pelo tratamento, a medida tem um efeito secundário importantíssimo: ela fez com que muitas mulheres perdessem o medo de passar pelos exames de prevenção", conta Maira, que acompanhou de perto todas essas mudanças no cenário da doença. Isso porque, antes da Femama, ela fundou, em 1993, o Instituto da Mama (Imama). E as duas instituições de tiveram um papel importante na consolidação de dados, pesquisas e pressão para a criação de políticas públicas para as pacientes de câncer de mama.

"Antigamente, quando não havia a garantia da reconstrução ou o procedimento era realizado só muito depois da mastectomia, o trauma era tão grande que havia mulheres que preferiam nem saber que tinham a doença, com medo do que viria pela frente", diz. Com isso, a quantidade de casos detectados em estágios muito avançados e, portanto, com poucas possibilidades de cura era altíssima. Saber que a possibilidade de sucesso é alta e que a mutilação permanente não é mais necessária tem impacto, portanto, na prevenção e, consequentemente na detecção precoce. 

O caso brasileiro é um dos primeiros da América Latina e, junto com México e Argentina, somos um país pioneiro no oferecimento de um tratamento amplo para as pacientes de câncer de mama.

Minha saúde não pode esperar

"É muito importante lembrarmos também que não podemos falar em câncer de mama e direito à reconstrução só durante a campanha do outubro rosa. O alerta deve ser constante", afirma Luly, da Johnson & Johnson. O câncer, afinal, não escolhe data para acontecer.

A pandemia do novo coronavírus aumentou ainda mais a necessidade de falar sobre a doença, a prevenção e os tratamentos continuamente. Com medo de se contaminar, muitas pessoas deixaram de lado consultas não urgentes. Uma pesquisa realizada por uma parceria entre a Johnson & Johnson e o Instituto Ipsos mostrou que sete em cada dez pessoas na América Latina atrasou ou cancelou cuidados médicos com medo da Covid-19. 

O achado motivou a criação da campanha "Minha saúde não pode esperar", que tem como objetivo chamar a atenção para a importância de se manter o atendimento e a prevenção de outras doenças em dia mesmo durante a pandemia. A iniciativa inclui um site com informações sobre telemedicina, diretrizes e perguntas frequentes sobre retomada de autocuidado, entre outros serviços.

No dia 02 de dezembro, a apresentadora e jornalista Adriana Couto entrevista a modelo Fernanda Motta, que está em tratamento contra o câncer de mama, e a influenciadora Jojoca. A conversa será transmitida em uma live pelo Instagram da Tpm (@revistatpm), às 20h. Para mais informações sobre o assunto: FEMAMA e Sociedade Brasileira de Mastologia.

Fonte: Revista TPM

  • Foto: Adriana Bresciani e Priscila Pozo